Ela é americana... da América do Sul

Domodossola, Italia

Um dos trens que vai da Suíça (Berna) até Milão tem uma baldeação numa cidade chamada Domodossola, oficialmente território já italiano, mas geograficamente bem na fronteira de um país com o outro. É uma cidade pequena, com menos de 20 mil habitantes e não tem nem comparação com Milão em termos de compras, opções de coisas a fazer, vida noturna, museus, enfim. Domodossola fica no pé dos alpes italianos e tem uma localização bem estratégica mesmo para eixo e conexões ferroviárias, se você for olhar no mapa. E seja pelos alpes, pela influência deles na meteorologia ou seja lá pelo que for, o norte da Itália tem um clima consideravelmente melhor que o da Suíça. Talvez a parte italiana da Suíça, o Ticino, seja o que mais se aproxima do clima de lá, já que lá o tempo está ensolarado muito mais frequentemente que aqui em Berna, por exemplo.


São apenas 180km de distância de Berna para Domodossola, mas fazendo essa distância já diferença no clima, foi motivação suficiente para me mandar pra lá numa sexta-feira que eu tinha livre no trabalho, quando a previsão do tempo aqui na parte alemã da Suiça indicava volta do frio e muita chuva, enquanto em Domodossola a previsão era de sol e 18 graus!

Isso em meados de Abril, quando já é primavera, e já sobrevivemos um inverno que é sempre difícil, uma previsão do tempo de frio e chuva é terrivelmente assustador. Eu pelo menos programo nossos passeios baseada na previsão do tempo hehehe. Coisa que aprendi com os suíços e vivendo aqui mesmo. Sendo assim, fomos eu e o Edi fugir do frio, ou melhor, num trem até Domodossola, conhecer então a cidade aparentemente pouco atraente.


Domodossola é minúscula, de fato. Andamos até o centro que é a principal atração da cidade. Eu já tinha ouvido falar que muitos suíços vão até Domodossola no sábado para a feira que acontece aos sábados ali no centro, mais precisamente na Piazza del Mercato, e voltam no fim do dia. No dia que eu fui não tinha feira, mas tinha bastante gente e tava acontecendo alguma coisa lá no centro também que eu não sabia o que era. Por isso tenho a impressão que está sempre acontecendo alguma coisa ali.

A cidade pode ser pequena e desconhecida, mas tem uma bagagem histórica importante. Domodossola era por exemplo a cidade chefe dos celtas quando os romanos conquistaram a região em 12AC. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi palco de uma rebelião contra os alemães, e apesar de terem perdido, foi um capítulo importante na história de movimentos anti-fascistas na Itália até o fim da guerra. Além disso, a cidade é local de encontro de peregrinos religiosos por conta do Monte Sacro de Domodossola.


Turisticamente falando, a cidade resume-se ao centrinho, que dá pra ver apenas em um dia mesmo. Não há grandes museus nem grandes monumentos. Visitamos uma igreja, tirei muitas fotos e depois paramos num restaurante na praça numa mesa no sol e comemos uma pasta, como devidamente deve ser quando se está na Itália, e eu tomei um drink típico italiano, já desejando o verão, o Aperol Spritz. Aliás, mesmo já sendo Itália, por ser bem na fronteira, até a validação do bilhete do trem é dada apenas como se fossem percorridas apenas ferrovias suíças, isto é, eu tenho o passe de trem da Suíça e não paguei nada a mais por estar na Itália.

Valeu muito a pena. Passamos um dia diferente, estar na Itália é sempre bom, e ainda aproveitei o dia com bastante sol e temperaturas mais elevadas. Bem diferente do cenário que encontramos quando voltamos para Berna, quando estava frio, nublado e uma tempestade de chuva pronta para cair a qualquer minuto. Domodossola é uma opção de passeio para quem está na Suíça ou no norte da Itália, e procura algo diferente e interessante.

I Encontro de Blogueiros e Leitores na Suíça

A coisa mais incrível de ter um blog é que por mais solitário que pareça eu aqui escrevendo nesta cadeira e nesta mesa que estou agora, o post que eu escrevo e publico depois alcança outros dispositivos que eu nem faço ideia. Com 7 anos de existência, esse bloguinho já me deu muitas gratificações e através dele eu já conheci pessoas, virtual e pessoalmente com tantas histórias diferentes e incríveis, e saber como nosso caminho se cruzou através de um post de blog é quase uma fatalidade.
Daí sempre motivada com os acontecimentos da vida aqui que sempre me surpreendem e com a repercussão dos posts sobre cada coisa que escrevia, colidida com a variação de sentimento que vira e mexe me deixava confusa se estava me expondo demais, fui me tornando uma "blogueira" entre aspas conhecida. Perdi as contas quantas vezes me pararam na rua perguntando se eu era a Liana do blog, ou quantas dezenas de emails recebi agradecendo tal e tal post ou pedindo tais e tais dicas. Não vivo de blog mas levo isso aqui tão a sério que depois da minha profissão, é o meu segundo emprego de graça que faço, depois da maternidade.

Tudo isso para introduzir o cenário de como chegamos, eu e mais 3 blogueiras, a um grupo de whatsapp, onde o assunto era "Nosso Encontro" e como isso aí gerou um encontro não só nosso, mas de mais de 30 pessoas, dentre outros blogueiros e leitores, aqui na Suíça, no mês passado. Uma delas eu já conhecia pessoalmente, aliás se você conhece meu blog, você provavelmente conhece o dela também, a Ana. E as outras, a Monique e a Juliana, que moram aqui há menos tempo mas já parecem ser blogueiras muito profissas. Ora, não conseguíamos nem nos encontrar nós 4, quanto mais organizar um encontro com outros blogueiros, e ainda mais leitores! Viagem minha...

Mas nós somos do tamanho dos nossos sonhos, e ainda bem que as meninas embarcaram nesta loucura também. Eu apesar de saber que não são tantos assim os leitores que acompanham o blog e blogueiros que escrevem aqui na Suíça, e a Suíça mesmo não sendo um país grande, junta-los no mesmo lugar na mesma hora seria uma tarefa impossível. A única maneira de saber seria tentando. Primeiro encontramos uma data que pelo menos nós 4 pudéssemos, uns 3 meses lá na frente e começamos então a entrar em contato com todos os blogueiros que escreviam sobre a Suíça e saber se estariam disponíveis naquela data para um encontro.
Confirmada a presença dos blogueiros, resolvemos abrir o encontro para leitores e tentar enriquecer ainda mais nosso encontro. Começamos a divulgar em todas as plataformas e mesmo não tendo muito tempo disponível, pois o encontro era só uma tarde em um sábado, queríamos aproveitar o tempo da melhor forma. E como seria melhor do que nos conhecendo melhor?
No dia 30 de Abril a tarde, estávamos lá, na Urbanfish, nos conhecendo. Apresentações de todos os blogueiros participantes que confirmaram sua presença. Infelizmente nem todos que convidamos puderam comparecer, mas mesmo assim teve gente que veio de St Gallen, de Vevey, de Lausanne! Vieram até aqui em Berna, nos encontrar.
Os blogueiros participantes foram:

Ana Luiza Souza - https://pelomundoblog.com/
Bruna Aeppli - http://www.family-trips.ch/
Fernanda Diniz - http://www.viagensdemae.com/
Fernanda Pontes - www.juridiconasuica.blogspot.ch
Juliana Guimarães - http://www.euandopelomundo.com/
Kellyn - http://www.umlindodiaparasorrir.com/
Liana Soares - http://www.elaeamericana.net/
Monique Ribeiro - http://mejogueinomundo.com/
Monique Sonego - http://gnomonique.com.br/
Renata Tonoli - https://asviagensdare.com/
Sandra Barbosa - http://foundueechocolate.blogspot.ch/

As fotos oficiais do evento ficaram por conta da Renata Tonoli, do blog citado acima. Foi demais conhecer mais um pouquinho de todas, e conhecer pessoalmente algumas que eu mesma já lia! Depois de todas as apresentações, fizemos uma pausa para processar tanta informação com a ajuda dos quitutes da Sweet Fee que nos forneceu tanta coisa gostosa. Aproveitamos claro para tirar muita foto, fazer Snap, conversar e nos preparar para o segundo round. Na segunda parte do encontro, fizemos um círculo bem grande para podermos incluir os leitores na conversa.
Foram vários assuntos, um assunto levou ao outro e o tempo que já parecia pouco voou enquanto conversávamos. Como foi agradável esse intercâmbio, e lembrar de posts que escrevi há séculos, e conhecer posts novos de outros blogueiros, outros focos, diferentes maneiras de abordar tais assuntos, saber mais de perto o que passa na cabecinha de quem escreve enquanto escreve, conhecer blogueiros profissionais e leitores que investiram seu tempo lendo a gente. Que encontro mais rico e tão inesquecível.
No instagram usamos a hashtag #encontrosuíça para as fotos em comum. E os posts sobre o encontro já estão saindo aí nos outros blogs, como no da Ana, da Juliana e da Monique. Agradeço imenso a quem se deslocou até Berna para este encontro, blogueiros e leitores, e contribuíram para que nosso encontro fosse um sucesso. Foi um prazer enorme conhecer cada um, acho que todo mundo saiu dali muito satisfeito com os novos contatos, com tanta troca e com tanta ideias borbulhando na cabeça. Sim, já estamos pensando num segundo encontro, mas ainda não sabemos quando nem onde, porem deve ser em Zurique. Certeza divulgarei nas redes do blog.

Kandersteg e Lago Oeschinen (no inverno)

A natureza e as paisagens na Suíça são tão lindas que não é de se admirar que o esporte mais praticado no país é a caminhada. A caminhada possibilita apreciar num ritmo mais desacelerado os cantinhos escondidos das paisagens, de onde novos cenários são revelados. Isso porque é uma das poucas coisas que dá pra fazer em qualquer estação do ano, diferente do ski, ou do futebol, por exemplo, que dependem de temporadas. A temperatura varia claro, e a paisagem tambem, mas é possível fazer trilhas de diferente níveis de dificuldade o ano inteiro. A Suíça não é um país grande mas são tantos lugares escondidos e de encher os olhos, e um deles é accessível e bem popular tanto no inverno, quanto no verão, que é o lago de Oeschinen, próximo a Kandersteg.


Eu já havia estado em Kandersteg uma vez há muitos anos para assistir um jogo de hockey. Era inverno e como é uma pequena cidade nas montanhas no cantão de Berna, a mais de mil metros de altitude, é destino certo para paisagens alpinas, esportes de inverno e escaladas entre nativos e turistas. Assim fiquei com Kandersteg guardada na memória. Porém com o passar do tempo, ouvia repetidamente esse nome da boca de colegas que iam esquiar no inverno ou... fazer trilhas.


O Lago Oeschinen é outro paraíso próximo de Kandersteg (4 kilometros) e em trilhas na região, o lago é certamente incluído nos passeios. Um dia lendo artigos na internet, vi como era diferente a paisagem do lago entre o inverno e o verão, ou primavera. Enquanto que no inverno o lago de mais de mil kilometros quadrados congela e fica cercado de árvores e montanhas branquinhas, no verão parece uma pintura feita a mão com cores naturais difíceis de acreditar.


Então depois que voltei para Berna, coloquei na minha lista conhecer melhor a região, tanto no inverno quanto no verão. Então no inverno que (finalmente) acabou, peguei um dia de boa previsão do tempo, isto é, frio claro, mas sol, e fui com o Edi para uma mini trilha de Kandersteg até o Oeschinensee. Parece loucura dizer "trilha" e "criança" na mesma frase, mas apesar da neve, do frio e da distância de 4 kilometros de percurso, quero dizer que foi uma boa experiência.


Dependendo da velocidade que voce anda e da frequência que você pára para tirar fotos e apreciar a paisagem ou só mesmo para descansar, 4 kilometros pode ser percorrido numa média de 30 minutos. Com o Edi, levamos 1 hora e meia. Vamos aos detalhes!!!



Fui de trem até Kandersteg com o Edi no carrinho, muito bem agasalhado claro, pois não me lembro mais quantos graus estava mas a temperatura era certamente negativa no início do dia. Andamos da estação de trem de Kandersteg até a estação de gôndola, de onde se pega o teleférico para subir à montanha. Deu uns 20 minutos andando, andando devagar pois o chão estava cheio de neve e escorregadio. Só daí já começava nossa aventura.


Lá em cima, aquela paisagem hipnotizantemente branca, com picos das montanhas cobertos de neve, ai como a natureza é linda. Tinha sol e várias pessoas completamente equipadas para um dia de ski ou de snowboard, e muitos se dirigindo à "trilha" até chegar o Lago Oeschinen. Lá em cima significa 1.500 metros de altitude, uns 5 graus a menos que lá embaixo, mas juro a você, não estava frio. Foi só começar a andar para começar a abrir os casacos e ir tirando as camadas de roupa. O carrinho do Edi encostei na entrada onde chegam as gôndolas, e fui com o Edi andando.


Não sabia se o Edi ia aguentar andar 4km, mas essa não era minha preocupação. Estava tão empolgada com o dia lindo que estava fazendo que simplesmente deixei acontecer. Tipo, andar tudo de uma vez sabia de qualquer forma que não, a questão ali era como seria essa mini trilha com uma criança de quase 3 anos. Nosso dia não seria no Lago Oeschinen e sim, chegando até o Lago Oeschinen. Mas com tempo bom tudo fica melhor, não é mesmo? Aliás, mãe de primeira viagem ne, da próxima vez eu levo um trenó para puxa-lo, ao inves de ele andar o tempo inteiro. Mas as paisagens são incríveis e eu estava com uma mochila cheia de "primeiros socorros", leia-se biscoitos, roupas, água, brinquedos e máquina fotográfica claro.

O suficiente para enganar o tempo e o cansaço da caminhada para o Edi, que devo admitir que não está ainda tão acostumado a essas swissness toda, mas já começamos desde cedo. Com perto de 20 minutos caminhando, ele já queria parar e vir pro meu colo. E eu o carreguei no colo sim em alguns trechos mas além de não conseguir carrega-lo no colo por muito tempo, pois ele pesa mais de 15kg, quero que ele vá se acostumando com isso. Então quando ele demonstrava cansaço, eu procurava em volta um bom lugar para parar, fazer um lanche, brincar. E numa segunda parada, ele até deitou no meu colo e tirou um cochilo. Faz parte. Enquanto isso eu tirei um milhão de fotos ao meu redor de todos os ângulos hehehe.
O caminho não é difícil não, pelo contrário, é sempre plano e nada cansativo. Tudo compensa quando temos paisagens desse padrão aí que você vê nas fotos. Chegar ao Lago Oeschinen foi muito gratificante, porém eu admito nem ter reconhecido ter chegado ao lago propriamente dito porque estava realmente tudo congelado. Pessoas caminhando em cima do lago congelado, então de longe não dava pra saber onde começava o lago, onde começava a neve de verdade.
Só chegando mais perto foi que deu pra ver o quão densa era a camada de gelo acima do lago, confidente o suficiente para sustentar várias pessoas caminhando ali normalmente. Mas depois de caminhar tanto e de brincar de jogar bolas de neve um no outro, eu e o Edi estávamos cansados e fomos então preencher a barriga no restaurante que tem por lá. Descanso e recompensa merecidos.
Mas ainda tinha a volta... Tínhamos chegado bem cedo e estava no início da tarde. O problema do inverno é que mesmo com lindos dias de sol, o dia não dura muito pois por volta das 4:30 da tarde já começa a escurecer, aí corta nosso barato. Portanto eu sabia que não podia perder muito tempo na pausa, e iniciamos o caminho de volta, no mesmo estilo da ida. Parando, brincando, andando... mas sim, como tínhamos acordado muito cedo, bateu o sono no Edi depois do almoço e ora ele dormiu no meu colo num banco de madeira no meio daquela neve toda, ora eu levava ele no colo.

E é interessante como caminhando encontramos tantas pessoas e várias nos cumprimentam e vendo o Edi desse estilo aí que vocês estão vendo nas fotos, é de se chamar a intenção. Um até se ofereceu para carrega-lo um pouco enquanto ele dormia. Foi muito legal!

Chegamos à estação das gôndolas de volta, o carrinho do Edi estava lá do jeito que eu deixei. Descemos até Kandersteg, de volta à estação de trem e voltamos para casa. À noite eu estava exausta, mas tão feliz de ter conseguido ter realizado esse passeio com o Edi, pois superamos várias barreiras, foi muito recompensador.

Não deu pra ver muito do lago como eu queria, mas não podia esperar diferente do inverno ne. Então agora é só esperar a primavera firmar, o verão chegar e ir ver a diferença desta paisagem com ares mais quentes. 

Criando um filho bilingue: diferenciando os dois idiomas

Há 1 ano atrás, eu escrevi este post falando sobre a criação do Edi em Português e Alemão até então. Ele estava para fazer 2 anos, então eram as primeiras palavras saindo em ambos os idiomas, embora eu estivesse começando a perceber que ele falava mais Alemão do que Português. Foram muitos comentários, discussões, lá, na página do blog no Facebook, no Instagram (@elaeamericana_liana), em vários meios. Aliás a internet está cheia de mães que criam seus filhos longe do Brasil e relatam suas experiências rede afora.

Porque eu acho que não há uma fórmula, uma única maneira, pois são sempre famílias diferentes, combinações e variações diferentes, mãe brasileira, pai não sei de onde, um terceiro idioma até. No meu caso, eu sempre falei com o Edi apenas em Português, mesmo ele começando a responder algumas coisas em Alemão, e foi o resto do ano passado todo assim. Essas tentativas, insistências, de vez em quando eu postava uma foto com algum novo desenvolvimento. Eu sabia que ele entendia quase tudo que eu dizia. Nossa, como ele desenvolveu em um ano! Hoje o Edi está com 3 anos e fala bastante, tanto Português quanto em Alemão. Portanto achei que seria um bom momento para escrever mais dessa "série" "Criando um filho bilíngue", que até já criei uma tag por aqui no blog, porque sei que assunto não vai faltar.

A novidade é que, bem, não é novidade que eu continuo falando com ele em Português e hoje ele entende tudo, tudinho mesmo que eu digo, e responde também em Português, ora em Alemão. Porém, como fomos praticamente só nós dois em casa nesse ano que passou, eu não pude muito perceber a evolução no Alemão de perto, como pude no Português. O Edi hoje está com um vocabulário em Português tão extenso, repete tanta coisa de primeira e repete de novo não sei quantos dias depois, ou seja, ele guarda na memória. Porém, no Alemão, eu não pudia avaliar tanto.

O Edi vai 4 dias por semana para a creche onde passa o dia inteiro lá, enquanto eu trabalho. Lá só se fala Alemão ou Suíço Alemão (dialeto de Berna). Além disso ele vê o pai regularmente, com quem também só ouve Alemão. Na creche eles me dizem que ele entende, que fala, embora às vezes ainda jogue uma palavra ou outra em Português que eles lá não entendem obviamente. Só que eu não estou lá pra ver ne. Então não pude acompanhar de perto o que de fato evoluiu e comparar em detalhes o desenvolvimento nos dois idiomas.

Às vezes brincando com outras crianças ou se estou conversando com alguém em Alemão e ele está por perto, vejo ele se comunicando em Alemão, porém quando falava diretamente comigo, sempre Português. Até que chegou um belo dia quando o Edi ficou doente e ficou com o pai em casa (na minha casa), uns dois meses antes de completar 3 anos. Eu cheguei em casa mais cedo do trabalho e quando vi, estava o Edi pedindo "wasser" e não "água", dizendo que quer "schue anlegen" e não "calçar sapato", que quer "essen" e não "comer", que quer "spielen" e não brincar.... Choque. Até então o Edi já havia falado todas essas coisas comigo claro, mas tudo em Português - água, calçar o sapato, jantar. Naquele dia eu vi que o Edi sabia provavelmente muito mais Alemão do que eu tinha consciência.

Perto de fazer 3 anos e agora depois que já fez 3 anos, houve um pico de desenvolvimento. Parece que do nada ele começou a falar muito mais, perceber mais coisas e que realmente estava mais "crescido" que ontem. E com o bilinguismo também. Outro dia na creche eu estava conversando com um rapaz que também toma conta das crianças lá, daí o Edi me interrompeu e me pediu - em Português - se podia ir buscar o chapéu e o carrinho na gaveta dele. Eu olhei para o rapaz na minha frente e disse ao Edi: "Pergunte a ele, Edi". Edi então virou-se para o rapaz e repetiu a MESMÍSSIMA frase só que em Alemão, ou melhor, Suíço Alemão (Berndeutsch) perfeitamente!

Fiquei tipo.... boquiaberta.... O cara respondeu lá que sim, Edi buscou o chapéu e o carrinho na gaveta dele, pegou na minha mão e disse "Vamos, mamãe?". Eu me abaixei, dei um abraço e deixei escorrer uma lágrima. Não vou esquecer jamais essa cena que pro rapaz lá, deve ter achado que eu sou louca ou exagerada, mas ele ou talvez muitos não saibam o que aquele momento ali significou.

O meu pequeno Edi que há pouco tempo estava aqui aprendendo a falar água, mamãe, Juca, agora está aqui falando frases inteiras num dialeto que eu peno para entender todos os dias no meu trabalho. Expo-lo todo dia ao idioma deu nisso. Está decidido, eu vou é aprender Suíço-Alemão com meu filho! Hahahahaha.

Daí depois disso, em vários dias, semanas, tentei explicar pra ele que eu falo Português, e papi, o pessoal da creche, falei o nome dos coleguinhas dele... falam Deutsch (Alemão). Edi entendeu. E começou a entender também, ou pelo menos se dar conta, que ele próprio sabia os dois idiomas e que sabia por exemplo como é "caminhão" em Português, e em Deutsch. Como é "calçar sapato" em Português, e em Deutsch. Como é "andar de trem" em Português, e em Deutsch, e a lista de vocábulos e expressões só cresce.

Pronto. Desde então estamos nesse exercício, ou sei lá como chamar, contínuo, repetitivo, mas com diferentes palavras e expressões, onde ele mesmo me surpreende quando diz algo em Português comigo, e logo depois diz "...mas mamãe, em Deutsch é assim..." e diz em Alemão. Meu filho, você não sabe o orgulho que me dá quando você faz isso. Sabido da mamãe.

Para mim particularmente que aprendi Inglês e inventei de aprender Alemão depois e estou aprendendo até hoje praticamente, mas por minha conta, por minha vontade própria, eu tendo indo atrás de um curso e me matriculado lá. Ver hoje meu filho aprendendo dois idiomas ao mesmo tempo assim tão naturalmente é uma experiência encantadora e muito, muito, muito gratificante. Imaginar que morando aqui na Suíça, quando ele for pra escola ainda terá o Francês e mais tarde, Inglês... meu filho será um poliglota.

Depois de conhecer algumas pessoas aqui filhos de imigrantes e que me contaram suas experiências com segunda língua e o Alemão, tenho certeza que quero e que vou continuar falando em Português com meu filho. Por mais tentador que seja aprender Alemão com ele, vou ser forte e insistir no Português. Não tenho muito o que deixar para ele, mas essa será minha herança, a sua conexão com o Português, com o Brasil, e comigo. Não sei como vou fazer ainda com a alfabetização em Português, mas ainda tenho tempo para pensar.

Às vezes é sim estranho quando estamos só nós dois na rua e falo com ele em Português, ele responde em Alemão (ou até em Português mesmo), e as pessoas ficam encancarando, observando, acho que tentando decifrar qual idioma estamos falando. Procuro não ligar e sei que vou superar esse incômodo. Prefiro me passar eternamente por imigrante, o que sou mesmo, e manter o Edi falando um bom Português, do que forçar uma naturalidade que não existe, que é falar Alemão com meu filho, apenas porque.... sei lá porque, porque estamos na Suíça? Não.

Já ouvi relatos de pessoas que cresceram em casas com pais cada um de uma nacionalidade, e que eventualmente, perdeu-se o contato com a segunda língua (normalmente a da mãe), porque não houve insistência ou prática suficiente, e hoje depois de adulto, a tal segunda língua é tão esquecida que é a mesma coisa que nada. Me mudei para a Suíça de mala e cuia há 7 anos, amo morar aqui, mas não sei se é aqui que vou morar o resto da minha vida. E o Brasil apesar de todos os problemas é de onde eu vim, minha família está lá, e eu quero que meu filho conheça. E a melhor maneira de manter-se conectado à essa origem é não perder o Português. Quero que se continuarmos aqui, depois de grande o Edi ainda saiba Português.

Comigo e com minha família e amigos brasileiros, o Edi só fala Português. Ele vê que eu estou falando em Português e fala de acordo com o idioma que a pessoa está falando. Já sabe que vovó, tia e prima moram no Brasil e que lá se fala "potoguêx". Não vejo a hora de ir novamente para o Brasil para o Edi ouvir mais Português e o Português dele dar ainda mais um pico de avanço, pois aqui na Suíça, ele só aprende comigo mesmo.

Diferençar os dois idiomas, saber que um é Português, o outro é Deutsch, saber com quem falar um, com quem falar o outro, e começar tão cedo a switch de um pro outro, como se fosse um interruptor que automaticamente muda quando vira de um lado pro outro tão naturalmente é sem dúvida o maior marco no bilinguismo do Edi até aqui. Precisava escrever um post sobre isso. Precisava registrar isso. Te amo, filho.