domingo, 29 de janeiro de 2012

Mudando os conceitos

Vira e mexe eu escrevo um post aqui no blog refletindo a vida na Suiça, alguma coisa nova que eu passei a observar ou fazer, ou só relatos do dia a dia mesmo. Tem até uma categoria de posts "reflexões". Afinal depois de passar o primeiro ano, as novidades deixam de ser maravilhas, voce muda as lentes com as quais enxerga as coisas e vê coisas que antes não via. Como eu estou chegando perto de completar 3 anos de Suiça, continuo ajustando o foco das minhas lentes e comemorando novas descobertas.

Desta vez, é uma coisa meio geral, mas eu vou tentar dar exemplos pra justificar minha mudança de opinião. Olha, cá pra nós, é normal a gente mudar de opinião quando a gente amadurece, com o passar dos anos, quando voce se compara com voce mesmo há 10 anos atrás; no caso aqui, eu não achei que ia ser assim em menos de 3 anos depois.

Não é nada sério nem de outro mundo, mas com os costumes aqui voce acha que não, mas termina se integrando à nova realidade, mesmo de pouquinho em pouquinho. Veja o inverno, por exemplo. Este é o terceiro que estou passando nessa Suiça. Nos dois últimos, era o tempo inteiro tudo branco lá fora, um frio de doer os ossos, a temperatura máxima nessa época em Janeiro era 0 graus. Aí chega o inverno 2012 super camarada por aqui. Sim, tá frio, mas não é porque eu estou mais acostumada não, o frio não está de doer a espinha como nos anos anteriores. Os termômetros não mentem e que diga a neve que não chega até aqui, fica só pelos alpes lá em cima. Tivemos uma nevada de verdade, e depois disso, só muita chuva e umas neves fininhas que não duram um dia.

Nos dois últimos invernos, engordei fácil fácil. Não sei se é psicológico, mas eu não conseguia almoçar salada ou comer uma fruta quando estava nevando. Sei lá, meu estômago pedia algo quentinho e se eu não ingerisse as calorias que meu organismo pedia, me sentia fraca. E todo mundo comentava que era normal engordar no inverno, também era difícil resistir àquele monte de guloseimas no supermercado, pouco tempo de luz de sol por dia, então as pessoas ficavam mais em casa, comer era normal. Aí eu engordava sem muito peso na consciência. Em Abril quando começava a esquentar um pouco, era aquela luta pra deixar de comer tanto.

Nao sei se é porque é meu terceiro inverno, não sei se é porque não tem neve e não está tão frio como nos últimos anos, mas eu não estou engordando desta vez. Pelo contrário, estou comendo salada sempre que o almoço do trabalho não me apetece, o que é muito comum, e não fico morta de fome desejando chocolate a noite como nos anos anteriores. Mesmo quando estava branco lá fora, não sentia como se eu precisasse ficar em casa comendo e vendo televisão.

Acordar cedo no escuridão também sempre foi um problema. No inverno só amanhece lá pras 8 da manhã e era um parto pra levantar da cama. O despertador tocava umas 5 vezes até eu realmente levantar e sair tropeçando até o banheiro. Hoje? Nada disso. O despertador toca no máximo 2 vezes (que é o normal no verão também) e meu organismo já não fica me implorando pra continuar deitada porque ainda não tem sol lá fora. O quarto sim está todo escurão quando eu levanto de manhã, mas eu acendo o abajour perto de mim e pronto, tem que levantar tem que levantar. A escuridão lá fora não é mais desculpa, é como se meu cérebro não aceitasse mais essa desculpa. Levanto sem reclamar.

Ainda no contexto do inverno, da engordação, de não conseguir levantar quando está escuro e tudo mais, ainda tenho mais uma coisa: ficar em casa. Nos últimos invernos, era constante eu ficar em casa depois do trabalho. Os programas com os colegas eram sempre indoors. Muito fondue na casa do outro (mais engordação) e tudo muito calórico. Agora, desde o início de janeiro, estou indo a academia com uma amiga duas vezes por semana depois do trabalho, contra todo o meu histórico de opiniões sobre ficar em casa no inverno. Bem, assim que cheguei aqui, eu queria entrar numa academia e fazer disso uma rotina, como já foi uma vez na minha vida lá no Brasil. Mas os pacotes que tem disponíveis lá são de 6 meses ou 1 ano, e eu pensei que po, vou fazer academia no inverno?! Sair de casa na maior friaca pra ir malhar? Eu mesmo não! Vou querer é ficar em casa no quentinho. E assim foi. Fiz algumas poucas vezes, paguei individual lá e a academia não se tornou uma rotina. Aí inventei de ir de novo agora em janeiro e adivinha? Não encontrei mais todos esses poréms que tinha colocado como obstáculos no início. Acho ótimo poder me exercitar em pleno inverno. É indoors, a academia é quentinha, e não importa se tá frio e nevando lá fora.

A academia é lotaaaada, encontrei várias pessoas do meu trabalho lá, e eles me disseram: no verão tem muito menos gente, porque as pessoas saem pra fazer coisas mais ao ar livre, e não querem ficar enfurnadas numa academia. Mas no inverno é a única opção! Tá aí! Dei meu braço a torcer. Nunca pensei que fosse possível pensar assim. Pra mim antes, inverno era sinônimo de preguiça, de ficar em casa de baixo do edredon comendo bobagem. Hoje penso diferente. Inverno vamos pra academia malhar as bobagens que eventualmente como, não mais com tanta frequencia. Meu corpo agradece.

Este inverno definitivamente me ensinou várias lições. Só agora estou percebendo de fato que mudei vários conceitos meus. Mas não só coisas sobre inverno e frio, também posso citar uma série de coisas aleatórias que hoje fazem parte do meu dia a dia e eu também tive que dar o braço a torcer.

Por exemplo, a história da reciclagem. Escrevi este post aqui há 1 ano atrás falando como separar lixo, os diferentes sacos, etc. Hoje pra mim é tão natural não por alumínio no lixo embaixo da pia. Ter a sacola de garrafas de vidro e PET na cozinha, separar o jornal e papelões. Não consigo mais terminar uma caixa de leite e joga-la no lixo. Eu dobro e junto com os jornais. Até quando estava no Brasil no final do ano passado, bateu meio que uma culpa quando inconscientemente fui fazer o mesmo e não tinha como fazer, e terminei jogando tudo no mesmo lixo.

Andar com Juca sem saquinho do cocô não rola há muito tempo. Juca vai fazer 9 anos e eu não sei como um dia, quando ele devia ter seus 2, 3 anos, eu andava com ele lá em Recife sem apanhar o cocô. Sério, eu deixava no meio da rua?? Como pode tamanha falta de responsabilidade? Será que eu não me sentia culpada? Horrível.

Além disso, a responsabilidade de prover ar fresco pro bichinho. Ele já fica tanto tempo no apartamento, que em chances que tenho, o levo para uma caminhada no parque, o solto na grama pra ele correr bastante. Antes eu não pensava assim.

Não sei se é porque no Brasil as pessoas tendem a ser românticas demais, mas há muito muito tempo atrás, quando vim a Europa pela primeira vez com meu ex namorado, tinha na minha cabeça que a Europa era lugar de casais. Vários casais de tudo quanto é idade no Brasil só vinha a Europa juntos. Então acho que coloquei isso na minha cabeça. Quando enfiei a ideia de vir trabalhar aqui sozinha, estava sim indo contra essa ideia, mas ainda assim pensava da mesma forma. Mas... putz, Europa ser sinal de romantismo e casais? Fala sério! Não precisa de muito tempo morando aqui pra perceber que os europeus casam muito mais tarde que no Brasil, são muito mais frios, sozinhos, moram sozinhos e fazer coisas sozinhos, muito mais do que pensei. Não acho que seja questão de solidão, porque existem muitos programas, os cafes são lotados de gente, e não preciso ir pra balada todo fim de semana pra sentir que tenho amigos do peito.

Aqui eu me sinto muito menos bicho do mato morando só do que no Brasil. Conheço várias pessoas na mesma situação que eu e nada melhor que encontrar sua turma bicho parecido pra nos sentirmos bem na mesma selva.

E isso já implica na próxima mudança de conceito que é a das viagens. Viajar pela Europa só com o namorado! Onde já se viu isso? Por que? Depois o namoro acaba e voce fica ai sem saber o que fazer com as fotos que tiraram juntos. Acho que são coisas independentes. Se tá afim de viajar, não importa, viaje. Não acho justo deixar de satisfazer um desejo, realizar um sonho de conhecer alguma coisa porque não tem namorado ou uma companhia qualquer pra ir com voce. Pensando assim realizei ano passado meu sonho de conhecer Israel e Petra, e olha, como foi bom. Sem falsa modestia, curti do início ao fim, desde o momento de que criei coragem de viajar só pela primeira vez, e logo pra um lugar tão diferente, preparar toda a viagem, programar dia a dia, nossa, curti demais. To aqui ainda cogitando qual será a extravagância desse ano. Extravagância no bom sentido, tá.

Lendo o post da Glenda sobre porque é tão difícil querer voltar a morar no Brasil, (post maravilhoso alias, se voce ainda nao leu, leia!), me pergunto se eu precisei vir até aqui pra aprender essas coisas, mudar meus conceitos, aprender tanta coisa... É, não sei até quando minha vida vai ter esse cenário suiço, ou cenário mundial, mas enquanto isso, eu vou escrevendo aqui meus achados, minha mudança de opinião, meus conceitos, porque, Deus do céu, há de servir pra alguma coisa.

14 comentários:

Ana Luiza disse...

Também me vejo assim Liana. Em junho faço 3 anos de Suíça e a gente muda sim. Bastante. Tanto emocionalmente como em atitudes. E isto é tão legal perceber né? Depois a gente nao entende como nao fazíamos coisas que fazemos hj, como separar o lixo, juntar o coco do cachorro.
Beijos

Liana disse...

Pois é. Olho pra trás e fico me perguntando, tentando me lembrar de como era antes, e porque agora penso tão mas tão diferente em certos aspectos.
Vivendo e aprendendo.

Inaie disse...

so de nao engordar no inverno ja ta valendo!!!

Miriam disse...

Você provocou mudanças, mudou o cenário,as situações e pode hoje fazer uma avaliação de crescimento em sua vida. Parabéns!

Sandra disse...

Também aprendi muito vivendo por aqui. Aprendi também a valorizar as coisas simples da vida como um piquenique no parque em um dia de sol. Eu acho que aqui as pessoas aprendem a ser independentes mais cedo, por isso parecem/são mais sozinhas. Um pouco antes de me mudar para cá larguei mão de esperar pelos outros para fazer o que eu tinha vontade (ex. um simples passeio no shopping, um cinema, e etc..). Acho que essa liberdade que você se dá não tem preço. Abs!!

Helen Harris disse...

Realmente, nós mudamos muito quando temos a oportunidade de morarmos fora. Pelo mesmo motivo, por isso que falo que é muito difícil me adaptar novamente ao Brasil, afinal, já moro fora há 10 anos. Claro que existe o argumento: "Ora, mas se vc se acostumou com o EUA/Suiça/etc depois de algum tempo, é claro que vc conseguiria se acostumar novamente com o Brasil depois de um tempo..." Mas, pelo menos no meu caso, não sei se conseguiria mais não...Claro que morar fora não é mil maravilhas e sinto falta da minha família sempre, mas tem certas coisas que já me habituei que não conseguiria mais abrir mão.. (e.g. não ter que me preocupar em pisar em coco de cachorro na rua, coisa que no Rio, sempre tenho que ficar de olho e tomar cuidado; ou então poder passear tranquilamente com meu ipad no ônibus, lendo as notícias, sem ter que me preocupar com assaltos...) Aprendi muito nesses últimos 10 anos e não sei se hoje, me acostumaria "de volta" com a vida no Brasil....

Liana disse...

Isso. E a gente que vem do Brasil pra cá termina aprendendo na marra coisas que são normais aqui e lá não, e isso faz com que a gente cresça tanto. Tambem não estou pronta pra voltar. Não que eu ache que esteja errada, não é questão de certo e errado, mas espero estar escrevendo "Mudando os conceitos 2" em breve.

Miller Manteiga. disse...

Oie.
A gente nem se conhece, trocamos alguns tweets, mas eu sempre acompanho o seu blog e olha, uma coisa que eu admiro muito em você é essa de ''dar a cara pra bater''.
Mulher, você é realmente corajosa, enfrenta muita situação que a maioria das mulheres não teria coragem.
Quanto a viajar sozinha, admiro muito mais ainda. Eu pelo menos não consigo, não me sentiria bem viajando pra algum lugar sozinho. Não acho legal.
Mas cada um, cada um né? Belo texto.

Liana disse...

e voce ainda diz que a gente nem se conhece? vc me conhece mto bem :)

S. W disse...

Eu fiz um post paródia do texto da Glenda, porque eu acredito que algumas coisas são básicas e você aprende em qualquer lugar do mundo, como respeitar diferenças, eu tenho amigos iranianos que respeitam os costumes do ocidente tando quanto Europeus, e tenho amigos Europeus que pegam no pé de qualquer coisa "exótica" vamos dizer assim. Aprendi a ser mais paciente, a vida não flui mais no ritmo frenético de São Paulo, é um exercicio diario, perceber que as coisas demoram mais tempo, um tempo que talvez seja necessário para o amadurecimento e aprendizado, quem sabe até merecimento. Mesmo sendo casada, eu aprendi a ser mais independente, a fazer de tudo um pouco sozinha, a ser a minha melhor compania, isso era algo que eu precisava aprender nem que fosse na marra, já que fui extremamente ligada a minha familía, nos primeiros anos aqui, eu ligava pra pedir opnião pra minha mãe até para o que cozinhar, hoje eu conto o que fiz, mas não pergunto e me faz um bem danado. A maior diferença foi na forma mais "doce" como eu via o mundo, inevitavelmente a Europa me endureceu, hoje eu também sou mais direta em dizer o que eu penso, mesmo achando que as vezes não deveria, mas também reajo muito melhor a diversas situações, talvez pela exposição com mais frequencia.

No fim o importante é tirar o que é proveitoso de todas as situações e seguir aprendendo em cada nova etapa da vida.

Beijos

Monica Lima disse...

Liana,
Li o post da Glenda mas não concordo com muita coisa do que ela escreveu, achei a visão dela até um pouco utópica com relação à vida fora do Brasil...

Acho sim que muita coisa do que vc escreveu é fruto da experiência de morar fora, mas também acredito que o amadurecimento é o maior responsável por todas essas mudanças.

Acho que a gente amadurece muito nas dificuldades, o que é inevitável quando a gente está recomeçando a vida em outro país, né? Então por isso que muita gente acredita que o fato de morar fora seja o determinante para tantas mudanças. Conhecer outras realidades é mesmo um "wake up call" pra muitos, mas tem gente que tem esses insights do que realmente é importante sem nem precisar sair do seu próprio bairro. Tô pensando até em escrever sobre isso, pois acho um pouco estranho essa discussão de voltar ou não voltar ao Brasil e do que é realmente qualidade de vida (a razão alegada por muitos para não voltar). Vou ver se me inspiro a escrever! rs

Essa questão do inverno realmente é dureza e foi algo que eu nunca consegui conviver numa boa. Parabéns pela força de vontade, é isso aí!

Coloquei um monte de idéias desconexas nesse comentário, mas espero que vc entenda o que quis dizer! Hehehe!

Beijos

Liana disse...

Oi Monica, entendi sim. Voce sempre faz bons comentários.
Então, eu concordo contigo de uma forma. A questão é que muitas das pessoas que vêm morar fora não teriam tal nível de amadurecimento se permanecessem vivendo no Brasil, até pelo que a cultura aí e o dia a dia permitem conhecer.
No meu caso, concordo que muita coisa vem sim com a idade, mas eu já morava só há algum tempo no Brasil, então tem muita coisa que acho que a vida aqui me proporcionou enxergar.

bjos

Anônimo disse...

Serio que voce precisou sair do Brasil para perceber que era feio deixar o coco do cachorro pela rua? Poxa!! Eu sempre via gente jogando lixo na rua e nunca fiz igual e tambem nao precisei sair do Brasil para saber que isso era falta de educacao!

Liana disse...

bom, se a matematica ajuda, Juca vai fazer 9 anos. e eu disse que ha muito tempo, desde que ele tinha 2, 3 anos que eu andava na rua sem saquinho, sim. nao vim pra ca pra perceber isso. percebi antes. de 2 anos ate 9 eh um bom tempo.
mas oh well, um comentario desses e ainda anonimo, nem se quer deu o trabalho de ler direito o post e so ta aqui pra criticar. haja paciencia. td bem, faz parte.

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